Soldados de barro, estátuas de mármore
O soldado romano dormia na terra fria, em tendas que gemiam com o vento. O missionário repousa em rede ou casebre gasto, com os pulmões pedindo ar, no mofo de um lar esquecido. Ambos sangram por reinos que não os abraçam, mas que os usam para erguer colunas e bandeiras.
Umas com brasões de impérios, outras com símbolos que atravessam os séculos. Em Roma, o general voltava em carro de ouro. Hoje, o conferencista retorna ovacionado, com o peito inflado por aplausos e um PowerPoint cheio de fotos da pobreza que não viveu. O soldado cavava valas para sobreviver.
O missionário cava poços, limpa feridas, ora e morre em silêncio. O general escrevia livros. O pastor do sertão, muitas vezes, não sabe se terá pão amanhã. A púrpura trocada pela túnica branca. O tapete vermelho substituído pelo barro nos calcanhares. Mas e os aplausos?
Ainda sobe aos palcos altos, na pantomima de apresentações bem projetadas, vídeos lindos e neurocietificamente bem preparados na base da PNL. Enquanto o que prega com pés rachados insere dados que não compreende em sistemas que jamais aprendeu a usar, sustentando o brilho dos generais que discursam em inglês fluente, com crachás pendurados sobre a gravata. Um serve pão seco. Outra janta salmão na Europa, em nome da missão.
Uma veste a camisa puída da causa. Outro recebe uniforme elegante com o logo da conferência. A história se repete.O Império não morreu — apenas aprendeu a usar microfone. E eu? Conheci os dois.
Estive na casa dos missionários e no palácio dos generais. Vi folhas de pagamento onde os soldados não aparecem, para não envergonhar os líderes. Dividi a rede com os esquecidos. Senti o cheiro da parede úmida, o banho gelado, a lágrima sem audiência. E chorei. Não lágrimas de água, mas lágrimas de sangue. Pois alguns ainda vivem em condições análogas à escravidão, enquanto outros praticam turismo apostólico.
E se Cristo está nisso tudo, Ele permanece mais perto dos pés descalços do que dos sapatos envernizados. Em data incerta, em local inóspito, em cenário que não convém mostrar — para que não seja censurado pelas redes.
Rodrigo Coutinho é Gestor de Negócios, Tributarista e Especialista em Controle Financeiro